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From: Silvio Rhatto <rhatto@riseup.net>
Date: Wed, 6 Jun 2018 10:55:28 -0300
Subject: [PATCH] Updates books/sociedade/processo-civilizador

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     burguesia ou as barreiras que impediam o desenvolvimento do comércio — este
     processo civilizador devia seguir-se ao refinamento de maneiras e à pacificação
     interna do país pelos reis.
+
+### Ruderia
+
+    Erasmo fala, por exemplo, da maneira como as pessoas olham.
+
+    [...]
+
+    A postura, os gestos, o vestuário, as expressões faciais — este comportamento
+    “externo” de que cuida o tratado é a manifestação do homem interior, inteiro.
+    Erasmo sabe disso e, vez por outra, o declara explicitamente: “Embora este
+    decoro corporal externo proceda de uma mente bem-constituída não obstante
+    descobrimos às vezes que, por falta de instrução, essa graça falta em homens
+    excelentes e cultos.” Não deve haver meleca nas narinas, diz ele mais adiante.
+    O camponês enxuga o nariz no boné ou no casaco e o fabricante de salsichas no
+    braço ou no cotovelo. Ninguém demonstra decoro usando a mão e, em seguida,
+    enxugando-a na roupa. É mais decente pegar o catarro em um pano,
+    preferivelmente se afastando dos circunstantes. Se, quando o indivíduo se assoa
+    com dois dedos, alguma coisa cai no chão, ele deve pisá-la imediatamente com o
+    pé. O mesmo se aplica ao escarro.
+
+    Com o mesmo infinito cuidado e naturalidade com que essas coisas são ditas — a
+    mera menção das quais choca o homem “civilizado” de um estágio posterior, mas
+    de diferente formação afetiva — somos ensinados a como sentar ou cumprimentar
+    alguém. São descritos gestos que se tornaram estranhos para nós, como, por
+    exemplo, ficar de pé sobre uma perna só. E bem que caberia pensar que muitos
+    dos movimentos estranhos de caminhantes e dançarinos que vemos em pinturas ou
+    estátuas medievais não representam apenas o “jeito” do pintor ou escultor, mas
+    preservam também gestos e movimentos reais que se tornaram estranhos para nós,
+    materializações de uma estrutura mental e emocional diferente.
+
+    [...]
+
+    Conforme já mencionado, os pratos são também raros. Quadros mostrando cenas de
+    mesa dessa época ou anterior sempre retratam o mesmo espetáculo, estranho para
+    nós, que é indicado no tratado de Erasmo. A mesa é às vezes forrada com ricos
+    tecidos, às vezes não, mas sempre são poucas as coisas que nela há: recipientes
+    para beber, saleiro, facas, colheres, e só. Às vezes, vemos fatias de pão, as
+    quadrae, que em francês são chamadas de tranchoir ou tailloir. Todos, do rei e
+    rainha ao camponês e sua mulher, comem com as mãos. Na classe alta há maneiras
+    mais refinadas de fazer isso, Deve-se lavar as mãos antes de uma refeição, diz
+    Erasmo. Mas não há ainda sabonete para esse fim. Geralmente, o conviva estende
+    as mãos e o pajem derrama água sobre elas. A água é às vezes levemente
+    perfumada com camomila ou rosmaninho.5 Na boa sociedade, ninguém põe ambas as
+    mãos na travessa. É mais refinado usar apenas três dedos de uma mão. Este é um
+    dos sinais de distinção que separa a classe alta da baixa.
+
+    Os dedos ficam engordurados. “Digitos unctos vel ore praelingere vel ad tunicam
+    extergere… incivile est”, diz Erasmo. Não é polido lambê-los ou enxugá-los no
+    casaco. Frequentemente se oferece aos outros o copo ou todos bebem na caneca
+    comum. Mas Erasmo adverte: “Enxugue a boca antes.” Você talvez queira oferecer
+    a alguém de quem gosta a carne que está comendo. “Evite isso”, diz Erasmo. “Não
+    é muito decoroso oferecer a alguém alguma coisa semimastigada.” E acrescenta:
+    “Mergulhar no molho o pão que mordeu é comportar-se como um camponês e
+    demonstra pouca elegância retirar da boca a comida mastigada e recolocá-la na
+    quadra. Se não consegue engolir o alimento, vire-se discretamente e cuspa-o em
+    algum lugar.”
+
+    [...]
+
+    Diversoria trata das diferenças entre as maneiras observadas em estalagens
+    alemãs e francesas. Descreve, por exemplo, o interior de uma estalagem alemã:
+    cerca de 80 ou 90 pessoas estão sentadas, salientando o autor que não são
+    apenas pessoas comuns, mas também homens ricos, nobres, homens, mulheres, e
+    crianças, todos juntos. E cada um está fazendo o que julga necessário. Um lava
+    as roupas e pendura as peças molhadas em cima do forno. Outro lava as mãos. Mas
+    a tigela é tão limpa, diz o autor, que a pessoa precisa de outra para se limpar
+    da água… É forte o cheiro de alho e outros odores desagradáveis. Pessoas
+    escarram por toda parte. Alguém está limpando as botas em cima da mesa. Em
+    seguida, a refeição é trazida. Todos molham o pão na travessa, mordem, e
+    molham-no novamente. O lugar é sujo e ruim o vinho. Se alguém pede vinho
+    melhor, o estalajadeiro responde: já hospedei muitos nobres e condes. Se o
+    vinho não lhe serve, procure outras acomodações.
+
+    [...]
+
+    Com a mesma simplicidade e clareza com que ele e Della Casa discutem questões,
+    tais como maior tato e decoro, Erasmo diz também: não se mova para a frente e
+    para trás na cadeira. Quem faz isso “speciem habet subinde ventris flatum
+    emittentis ant emittere conantis” (dá a impressão de constantemente soltar ou
+    tentar soltar ventosidades intestinais).
+
+    [...]
+
+    É contra o bom-tom segurar a faca ou a colher com toda mão, como se fosse
+    um porrete: segure-as sempre com os dedos.
+
+### Conduta
+
+    A tendência cada vez maior das pessoas de se observarem e aos demais é um dos
+    sinais de que toda a questão do comportamento estava, nessa ocasião, assumindo
+    um novo caráter: as pessoas se moldavam às outras mais deliberadamente do que
+    na Idade Média.
+
+    Dizia-se a elas: façam isto, não façam aquilo. Mas de modo geral muita coisa
+    era tolerada. Durante séculos, aproximadamente as mesmas regras, elementares
+    segundo nossos padrões, foram repetidas, obviamente sem criar hábitos firmes.
+    Neste momento, a situação muda. Aumenta a coação exercida por uma pessoa sobre
+    a outra e a exigência de “bom comportamento” é colocada mais enfaticamente.
+    Todos os problemas ligados a comportamento assumem nova importância. O fato de
+    que Erasmo tenha reunido em um trabalho em prosa regras de conduta que haviam
+    sido transmitidas principalmente em versos mnemônicos ou espalhadas em tratados
+    sobre outros assuntos, e que tenha pela primeira vez dedicado um livro inteiro
+    à questão do comportamento em sociedade, e não apenas à mesa, é um claro sinal
+    da crescente importância do tema, como também o foi o sucesso do livro.35 E o
+    aparecimento de trabalhos semelhantes, como o Cortesão, de Castiglione, ou o
+    Galateo, de Della Casa, para citar apenas os mais conhecidos, aponta na mesma
+    direção. Os processos sociais subjacentes já foram indicados e serão discutidos
+    adiante em mais detalhes: os velhos laços sociais estão, se não quebrados, pelo
+    menos muito frouxos e em processo de transformação. Indivíduos de diferentes
+    origens sociais são reunidos de cambulhada. Acelera-se a circulação social de
+    grupos e indivíduos que sobem e descem na sociedade.
+
+    Em seguida, lentamente, durante o século XVI, mais cedo aqui, mais tarde ali e
+    em quase toda parte com numerosos reveses até bem dentro do século XVII, uma
+    hierarquia social mais rígida começa a se firmar mais uma vez e, de elementos
+    de origens sociais diversas, forma-se uma nova classe superior, uma nova
+    aristocracia. Exatamente por esta razão, a questão de bom comportamento
+    uniforme torna-se cada vez mais candente, especialmente porque a estrutura
+    alterada da nova classe alta expõe cada indivíduo de seus membros, em uma
+    extensão sem precedentes, às pressões dos demais e do controle social. E é
+    neste contexto que surgem os trabalhos de Erasmo. Castiglione, Della Casa e
+    outros autores sobre as boas maneiras. Forçadas a viver de uma nova maneira em
+    sociedade, as pessoas tornam-se mais sensíveis às pressões das outras. Não
+    bruscamente, mas bem devagar, o código do comportamento torna-se mais rigoroso
+    e aumenta o grau de consideração esperado dos demais. O senso do que fazer e
+    não fazer para não ofender ou chocar os outros torna-se mais sutil e, em
+    conjunto com as novas relações de poder, o imperativo social de não ofender os
+    semelhantes torna-se mais estrito, em comparação com a fase precedente.  As
+    regras de courtoisie prescreviam também “Nada diga que possa provocar conflito
+    ou irritar os outros”: Non dicas verbum cuiquam quot ei sit acerbum.36
+
+    [...]
+
+    A regra de não estalar os lábios quando se come é também encontrada com
+    frequência em instruções medievais. Sua ocorrência no início do livro, porém,
+    mostra claramente o que mudou. Demonstra não só quanta importância é nesse
+    momento atribuída ao “bom comportamento”, mas, acima de tudo, como aumentou a
+    pressão que as pessoas exercem reciprocamente umas sobre as outras. Torna-se
+    imediatamente claro que esta maneira polida, extremamente gentil e
+    relativamente atenciosa de corrigir alguém, sobretudo quando exercida por um
+    superior, é um meio muito mais forte de controle social, muito mais eficaz para
+    inculcar hábitos duradouros do que o insulto, a zombaria ou ameaça de violência
+    física.
+
+    Nos diversos países formam-se sociedades pacificadas. O velho código de
+    comportamento é transformado, mas apenas de maneira muito gradual. O controle
+    social, no entanto, torna-se mais imperativo. E, acima de tudo, lentamente muda
+    a natureza e o mecanismo do controle das emoções. Na Idade Média, o padrão de
+    boas e más maneiras, a despeito de todas as disparidades regionais e sociais,
+    evidentemente não mudou de qualquer forma decisiva. Repetidamente, ao longo dos
+    séculos, as mesmas boas e más maneiras são mencionadas. O código social só
+    conseguiu consolidar hábitos duradouros numa quantidade limitada de pessoas.
+    Nesse momento, com a transformação estrutural da sociedade, com o novo modelo
+    de relações humanas, ocorre, devagar, uma mudança: aumenta a compulsão de
+    policiar o próprio comportamento. Em conjunto com isto é posto em movimento o
+    modelo de comportamento.
+
+    [...]
+
+    8. Não é tarefa das mais fáceis tornar esse movimento bem visível, sobretudo
+    porque ele ocorre com grande lentidão — em passos bem pequenos, por assim dizer
+    — e porque nele acontecem também múltiplas flutuações, seguindo curvas mais
+    curtas ou mais longas. É evidente que não basta estudar isoladamente cada única
+    fase a qual esta ou aquela declaração sobre costumes e maneiras se refere.
+    Temos que tentar enfocar o próprio movimento, ou pelo menos um grande segmento
+    dele, como um todo, como se acelerado. Imagens devem ser postas juntas em uma
+    série, a fim de nos proporcionar uma visão geral, de um aspecto particular, do
+    processo que se desenrola: a transformação gradual de comportamento e emoções,
+    o patamar, que se alarga, da aversão.
+
+    [...]
+
+    o movimento deve ser estudado em toda a sua polifonia de muitas camadas, não
+    como uma linha, mas como uma espécie de fuga, com uma sucessão de
+    movimentos-motifs semelhantes, em níveis diferentes.
+
+    [...]
+
+    Cabe à pessoa de mais alta posição no grupo desdobrar primeiro seu guardanapo e
+    os demais devem esperar até que ele o faça, antes de abrirem os seus. Quando as
+    pessoas são aproximadamente iguais, todas devem desdobrá-los juntas sem
+    cerimônia. [N.B. Com a “democratização” da sociedade e da família isto se
+    tornou a regra. A estrutura social, neste caso ainda do tipo
+    hierárquico-aristocrático, reflete-se na mais elementar das relações humanas.]É
+    errado usar o guardanapo para enxugar o rosto, e mais ainda limpar os dentes
+    com ele, e seria uma das mais graves infrações da civilidade usá-lo para se
+    assoar… O emprego que pode e deve dar ao guardanapo é o de enxugar a boca,
+    lábios, e dedos quando estiverem engordurados, limpar a faca antes de cortar o
+    pão e fazer o mesmo com a colher e o garfo depois de usá-los. [N.B. Este é um
+    dos muitos exemplos do extraordinário controle do comportamento concretizados
+    em nossos hábitos à mesa. O emprego de cada utensílio é limitado e definido por
+    grande número de regras bem precisas. Nenhuma delas é evidente por si mesma,
+    como pareceram a gerações posteriores. Seu uso foi desenvolvido aos poucos em
+    conjunto com a estrutura e mudanças nas relações humanas.]
+
+### Dinâmica
+
+    A proibição não é nem de longe tão autoevidente como hoje. Vemos como, aos
+    poucos, transforma-se em um hábito internalizado, em parte do “autocontrole”.
+
+    As mudanças no padrão são muito instrutivas (Exemplo K, abaixo). Em alguns
+    aspectos são muito extensas. A diferença já se constata no que não mais precisa
+    ser dito. Muitos capítulos tornam-se menores. Muitas “más maneiras” antes
+    discutidas em detalhe merecem apenas uma referência de passagem. O mesmo se
+    aplica a numerosas funções corporais anteriormente comentadas em grande
+    extensão e minúcia. O tom é em geral menos suave e, não raro, muito mais duro
+    do que na primeira versão.
+
+    [...]
+
+    Ouvimos pessoas de diferentes épocas falando mais ou menos sobre o mesmo
+    assunto. Desta maneira, as mudanças se tornaram mais claras do que se as
+    tivéssemos descrito em nossas próprias palavras. Pelo menos do século XVI em
+    diante, as injunções e proibições pelas quais é modelado o indivíduo (de
+    conformidade com o padrão observado na sociedade) estão em movimento
+    ininterrupto. Este movimento, por certo, não é perfeitamente retilíneo, mas,
+    através de todas as suas flutuações e curvas individuais, uma tendência global
+    clara é apesar de tudo perceptível, se estas vozes dos séculos passados são
+    ouvidas em conjunto.
+
+    Os tratados do século XVI sobre as boas maneiras são obra da nova aristocracia
+    de corte, que está se aglutinando aos poucos a partir de elementos de várias
+    origens sociais. Com ela surge um diferente código de comportamento.
+
+    De Courtin, na segunda metade do século XVII, fala a partir de uma sociedade de
+    corte que é a mais plenamente consolidada — a da corte de Luís XIV. E se dirige
+    principalmente a pessoas de categoria, pessoas que não vivem diretamente na
+    corte, mas que desejam conhecer bem as maneiras e costumes que nela têm curso.
+
+    Afirma ele no prefácio: “Este tratado não se destina à impressão, mas apenas a
+    atender ao cavalheiro de província que solicitou ao autor, como amigo
+    particular seu, que ministrasse alguns preceitos de civilidade ao seu filho,
+    que ele tencionava enviar à corte quando completasse seus estudos… Ele (o
+    autor) empreendeu este trabalho apenas para conhecimento de gentes
+    bem-nascidas; apenas a elas é dirigido; e particularmente à juventude, que
+    poderá encontrar alguma utilidade nestes pequenos conselhos, já que nem todos
+    têm a oportunidade nem dispõem de meios para virem à corte, em Paris, aprender
+    os refinamentos da polidez.”
+
+    Pessoas que vivem ou fazem parte do círculo que dá exemplo não precisam de
+    livros para saber como “alguém” deve se comportar. Isto é óbvio. Por isso é
+    importante descobrir com que intenções e para que público esses preceitos são
+    escritos e publicados — preceitos que originariamente são o segredo distintivo
+    dos fechados círculos da aristocracia de corte.
+
+Escalada das boas maneiras como forma de manutenção da distinção social:
+
+    O público visado é muito claro. Enfatiza-se que os conselhos são apenas para as
+    honnêtes gens, isto é, de modo geral, gente da classe alta. Em primeiro lugar,
+    o livro atende à necessidade da nobreza provinciana de se informar sobre o
+    comportamento na corte e, além disso, à de estrangeiros ilustres. Mas pode-se
+    supor que o sucesso apreciável deste livro resultou, entre outras coisas, do
+    interesse despertado nos principais estratos burgueses. Há muito material que
+    demonstra como, nesse período, os costumes, comportamento e modas da corte
+    espraiavam-se ininterruptamente pelas classes médias altas, onde eram imitados
+    e mais ou menos alterados de acordo com as diferentes situações sociais. Perdem
+    assim, dessa maneira e até certo ponto, seu caráter como meio de identificação
+    da classe alta. São, de certa forma, desvalorizados. Este fato obriga os que
+    estão acima a se esmerarem em mais refinamentos e aprimoramento da conduta. E é
+    desse mecanismo o desenvolvimento de costumes de corte, sua difusão para baixo,
+    sua leve deformação social, sua desvalorização como sinais de distinção — que o
+    movimento constante nos padrões de comportamento na classe alta recebe em parte
+    sua motivação. O importante é que nessa mudança, nas invenções e modas do
+    comportamento na corte, que à primeira vista talvez pareçam caóticas e
+    acidentais, com o passar do tempo emergem certas direções ou linhas de
+    desenvolvimento. Elas incluem, por exemplo, o que pode ser descrito como o
+    avanço do patamar do embaraço e da vergonha sob a forma de “refinamento” ou
+    como “civilização”. Um dinamismo social específico desencadeia outro de
+    natureza psicológica, que manifesta suas próprias lealdades.
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